Séries, cinema e TV

Requinte de personagens aliado a um caminho final quase frio

É assim que Órfãos da Terra vem vindo: em um ritmo quase frio.  Desde sempre, o folhetim de Duca Rachid e Thelma Guedes abriu espaço para vários pontos de reflexão. Vários! Sem sentimentalismo barato ou drama além da conta, a novela vinha em um caminho bonito de se ver. Até o quarto pedaço, se assim podemos ordenar, que é justamente o final da aventura de tantos personagens fortes e cheios de simbologia.

Destacar um nome forte em toda a trama? Não tenho como. Elenco escolhido a dedo, sem tirar nem por, ninguém ficou à frente de ninguém. Aconteceu justamente o contrário com alguns: não disseram a que vieram mesmo tão ricos de conteúdo. Exemplo clássico disso foi o ótimo ator Glicério do Rossário, marido de Aline Nasser, o Caetano. Se vocês repararem, nem o nome dele está listado entre os personagens no site do Gshow. Como se fosse secundário “do secundário”. Vamos combinar aqui que cabia, e muito, a mistura de um nordestino em uma São Paulo cheia de preconceito, casado com uma síria. Ou seja, assunto não faltava para ele. Mas foi somente o pai, o marido, o dono de oficina mecânica. Uma pena.

Outros dois que se uniram porque deram a impressão de “vamos ficar por aqui mesmo” foi Hussein (Bruno Cabrerizo) e Helena (Carol Castro). Carol tinha tudo para ser uma psicótica maravilhosa e mostrar a doença da posse também no lado feminino em uma relação. Desperdiçada em um grau inexplicável. Junto com Muna (Lola Fanucchi) e Fairouz (Yasmin Garcez), não tiveram chance de mostrar nada do que poderiam. Mau uso. Se existe conteúdo lá na sinopse, por que perder tanto tempo com cenas meio toscas? Vamos direto ao assunto, queridos autores!

Vilões? Só um: Aziz. E para lá de bem feito! Aliás, reclamar o que seja de Herson Capri é um daqueles erros nossos de cada dia. Que ator, senhores! Dalila (Alice Wegmann) trouxe uma vilania tipo “Dick & Mutlley” do desenho “Corrida Maluca”. Seu antagonista foi o delegado Almeidinha (Danton Mello) que representou bem os anões da “Quadrilha da Morte” assim que entrava em seu Escort XR-3 , o Bomba Bala. Em nada isso traduz um trabalho mau feito de Danton e Wegmann. Pelo amor de Iemanjá, né?! Os dois são incríveis, principalmente Alice. Mas Thelma e Duca não conseguiram construir uma vilã e um delegado críveis. Muitos pontos falhos. Dalila quer levantar a bandeira de Aziz, mas não consegue porque tudo é sempre muito apoplético, enquanto a linha do pai era sempre direta e destruidora. Sem muitas penas de pavão.  Aí ficou o erro. Uma pena.

De todo jeito, a novela é um estímulo claro e sensível para tantos outros autores. Que cuidado, emoção na dose certa, personalidade em personagens , enfim tudo que esperamos de tanto tempo de trabalho e entrega. Um salve para cada um dos grandes que nos brindaram com horas de admiração: Eliane Giardini, Flavio Migliaccio, Ana Cecília Costa, Osmar Prado, Paulo Betti, Niccete Bruno e todos mais. Mais um axé para quem mostrou talento, sensibilidade e sensações diversas: Guilhermina Libanio, Eli Ferreira, Filipe Bragança, Cristiane Amorim, Verônica Debom e Blaise Musipere. Que elenco afinado, cheio de coisas novas e jeitos diferenciados para apresentar mais arte para nós que andamos com tanta escassez de leveza.

No geral, parabéns a todos e vamos ver o quê nos espera nesta retinha final. Bem-vinda, “Éramos Seis”.