Séries, cinema e TV

“Inacreditável” urge nossa atenção

“A República Democrática do Congo tem uma das taxas mais altas de violência sexual do mundo”  BBC

“Capital mundial do estupro: na África do Sul, uma mulher é violentada a cada 27 segundos. No país da última Copa do Mundo, uma menina tem mais chances de ser estuprada do que aprender a ler; Aids é epidemia nacional” OperaMundi

“De acordo com o Anuário de Segurança Pública, 180 pessoas foram violentadas por dia no país, a maior parte do sexo feminino. “ O Globo

“De cada dez estupros, oito ocorrem contra meninas e mulheres e dois contra meninos e homens. A maioria das mulheres violadas (50,9%) são negras.” Agência Brasil EBC

Esta é a nossa realidade. Infelizmente. Não saberia dizer como, quando, de quê maneira isso pode mudar. Lutar contra, apresentando leis, maior rigor no tratamento de quem é vítima de uma violência deste porte, é absurdamente importante. Voltar a sentir a segurança de se pode continuar vivendo sem medo de virar uma esquina ou tão simplesmente ficar com alguém em uma balada, é uma batalha interna.

A Netflix lançou “Inacreditável”. Uma minissérie, ou série (porque parece que estão pensando em uma segunda temporada), que trata exclusivamente do que sentem as mulheres que são violentadas. O foco não permanece em cima de quem fez, nem porque, mas NO quê todas elas sentiram e continuam passando em suas vidas.  O que deixa a historia para lá de interessante e comovente. No começo pensei que iriam direcionar para as suspeitas sobre quem seria o cara, mas não. Amém que foi por outro caminho e o ótimo roteiro seguiu um caminho impactante e muito mais importante.

Tudo começa com uma menina de 12 anos. “A vítima é Marie Adler (Dever), uma adolescente de Washington que é abusada e reporta o caso para as autoridades. O caso fica sem resolução até que duas detetives, Grace Rasmussen e Karen Duvall (Collette e Wever) o pegam e ligam o crime ao veterano da Marinha Chris McCarthy. Como resultado, a cidade de Lynwood é processada e paga US$ 150 mil de indenização para vítima.”. Todo o roteiro é absurdamente dolorido. Vale ressaltar que é um caso verdadeiro, McCarthy tem agora 41 anos e só poderá pedir condicional em 2284…

Lembram de Erin Brocovich de Julia Roberts? Pois bem, a direção é da mesma Lisa Cholodenko. Não existe um minuto que você consiga se furtar à emoção. Tanto pelo lado de Marie que passa por maus bocados até ser finalmente respeitada pela lei, quanto pelo cotidiano de tantas outras vítimas. O sistema é absolutamente frágil e machista. Necessário DEMAIS colocar a ótica, com todas as conversas envolvidas no contexto. De cada personagem, conseguimos tirar algo que nos toca e sensibiliza.

Todos os atores muito bem colocados, na medida. Nada chega fora dos limites ou caminha pelo lado dramático. Tudo cabe no que se pensou em passar de historias tão tristes e que marcam em definitivo a vida de muitas mulheres. Salve para Kaitlyn Dever e Toni Collette . Já com Emmy, Collette merece outro por este trabalho detalhado, difícil, sensível. E Dever um axé por conseguir suportar transmitir para a tela toda a dor que a personagem central passa.

“Inacreditável” é uma historia necessária de ser vista por mais de uma vez. Para que todos os detalhes sejam observados, relacionados. Lindo trabalho da Netflix! Observem a conversa final de Marie tanto com um dos investigadores que a atendeu logo no primeiro episódio, quanto com a investigadora que pesquisou até achar o animal que danificou tantas vidas.