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Gal Costa revê cinco décadas de carreira em álbum ao vivo

Registrado em março, durante duas apresentações na Casa Natura Musical (SP), A Pele do Futuro ao Vivo chega às plataformas digitais em 13 de setembro pela gravadora Biscoito Fino. Simultaneamente, o novo álbum de Gal Costa ganha edições luxuosas em DVD e CD duplo. O lançamento contempla o roteiro integral do espetáculo idealizado e dirigido por Marcus Preto, que assina este texto, e soma 24 canções, entre clássicos e novidades. O DVD tem direção da dupla Henrique Carvalhaes e Rafael Gomes [das premiadas montagens teatrais “Gota d’Água (A Seco)” e “Um Bonde Chamado Desejo”]. A captação de som e a mixagem ficaram sob os cuidados de Duda Mello.

Em sua versão ao vivo, A Pele do Futuro expande o conceito original do álbum gravado por Gal em 2018. O trabalho de estúdio imprimia, em 13 canções inéditas, as cicatrizes que o passar do tempo tatuou na voz da cantora – e, por consequência inevitável, na pele de toda a música popular brasileira transformada pela força estética estratosférica de seu canto. O roteiro do show foi em busca das tatuagens anteriores, matrizes dessa pele que fica mais velha ao mesmo tempo em que se renova, peças-chave já consagradas por Gal em mais de cinco décadas de gravações.

Para efeito de narrativa, o espetáculo foi pensado em três atos.

O primeiro concentra as canções escritas à sombra da ditadura militar dos 1960 e 1970, como “Dê um Rolê” (Moraes Moreira/ Galvão), “Mamãe Coragem” (Caetano Veloso/ Torquato Neto), “London, London” (Caetano Veloso) e, inédita na voz de Gal até aqui, “As Curvas da Estrada de Santos” (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos), música que Roberto apresentou a Caetano Veloso em uma visita a ele em pleno exílio londrino.

O segundo bloco agrupa as canções de amor e desamor escritas nesse e em outros períodos: “Lágrimas Negras” (Jorge Mautner/ Nelson Jacobina), “Sua Estupidez” (de novo Roberto e Erasmo), “Volta” (Lupicínio Rodrigues), “Que Pena” (Jorge Ben Jor), “Motor” (Teago Oliveira, jovem compositor e vocalista da banda baiana Maglore) e “O que É que Há” (Fábio Jr./ Sérgio Sá). As duas últimas, também nunca terem sido cantadas por Gal, se transformaram nos primeiros singles deste trabalho e lançados em maio e junho.

O último ato traz uma série de temas dançantes: como escreveu Mano Brown, em tempos de crise, dance. O show termina, portanto, com hits solares como “Chuva de Prata” (Ed Wilson/ Ronaldo Bastos), “Azul” (Djavan) e um pot-pourri com os frevos carnavalescos que Gal gravou com estrondoso sucesso a partir do final dos anos 1970: “Bloco do Prazer” (Moraes Moreira/ Fausto Nilo), “Balancê” (João de Barro/ Alberto Ribeiro), “Massa Real” (Caetano Veloso) e “Festa do Interior” (Moraes Moreira/ Abel Silva).

Em todos os atos, costurando a Gal de todos os tempos, está a Gal de agora. A que canta a nova geração da música popular brasileira, de Silva e Omar Salomão (“Palavras no Corpo”) até Dani Black (“Sublime”), passando pela diva do sertanejo feminino Marília Mendonça (“Cuidando de Longe”). A que interpreta canções que compositores veteranos escreveram especialmente para ela, de Gilberto Gil (“Viagem Passageira”) a Jorge Mautner (“Minha Mãe”), passando por Nando Reis (“Mãe de Todas as Vozes”).

Subcutâneas, as passagens de um ato para outro nunca ficam visíveis para quem assiste. É a luz e o cenário – assinados conjuntamente por Omar Salomão, Alessandro Boschini e Paulo Denizot – que constroem, dentro da retina, todas as transições: do dia triste e soterrado pela situação política que volta a assombrar à noite brilhante e redentora do globo de espelhos na pista de dança.

Omar também assina a capa do álbum, feita sobre a fotografia de Marcos Hermes. A banda conta com Pedro Sá na guitarra, Chicão nos teclados, Lucas Martins no baixo, Hugo Hori na flauta e no saxofone e Pupillo na bateria e direção musical.

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